Em uma floresta distante, um macaco vivia tranquilamente entre os galhos de uma árvore carregada de frutos. Sua rotina era simples: alimentar-se, descansar e observar o movimento da floresta.
Certo dia, enquanto saboreava um fruto, percebeu uma borboleta que voava delicadamente entre as flores. Aquilo lhe pareceu estranho. Não compreendia por que alguém perderia tanto tempo voando sobre flores quando poderia estar procurando frutos, como ele fazia.
Incomodado com aquele comportamento tão diferente do seu, arrancou um fruto da árvore e o lançou contra a borboleta. Ela desviou e continuou voando, indiferente à hostilidade.
Outros macacos, ao presenciarem a cena, começaram a imitar o companheiro. Curiosamente, nenhum deles sabia explicar exatamente por que as borboletas mereciam ser atacadas. Bastava que fossem diferentes. E, assim, o que começou como uma atitude isolada transformou-se em um comportamento coletivo.
Durante dias, multiplicando adéptos ao movimento, os macacos lançaram seus frutos contra as borboletas. Quanto mais elas voavam, mais frutos eram arremessados. E quanto mais frutos eram desperdiçados, maior parecia ser a convicção de que estavam fazendo a coisa certa.
Até que, certa manhã, perceberam que a árvore estava vazia.
As borboletas continuavam voando. Os macacos, porém, já não tinham o que comer.
O tempo passou. Os frutos espalhados pelo chão apodreceram, suas sementes germinaram e novas plantas começaram a surgir. Para a grande surpresa dos macacos, as novas plantas também floresceram, atraindo ainda mais borboletas. A floresta, antes dominada por uma única árvore frutífera, transformou-se em um cenário de cores e movimentos.
Do alto dos galhos vazios, os macacos contemplavam aquilo que não conseguiram impedir. Suas tentativas de destruir o que lhes parecia diferente haviam contribuído para multiplicar justamente aquilo que rejeitavam.
A intolerância tem dessas ironias.
Há pessoas que desperdiçam aquilo que possuem tentando atingir quem pensa, vive ou enxerga o mundo de maneira diferente. Não percebem que a hostilidade pode empobrecer muito mais quem a pratica do que quem a recebe.
O comportamento coletivo também tem seus perigos. Quando a imitação substitui a reflexão, até o absurdo ganha aparência de razão. E, quando a rejeição se torna uma causa comum, poucos se perguntam o que realmente estão defendendo.
No fim, os macacos perderam seus frutos, mas as borboletas não perderam suas asas.
Esta crônica não é sobre frutos. É sobre o respeito e a preservação da comunhão com aqueles que, após a derrota podem permanecer calados em respeito à nossa dor.
Talvez a maior tragédia da intolerância não seja a incapacidade de aceitar as diferenças, mas a disposição de destruir o que temos, apenas para tentar impedir que o outro continue sendo quem é.
Crônica de Adeneir Sousa
